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O chato de galocha

Nos complexos relacionamentos humanos o chato é presença marcante em todas as ocasiões especialmente nas mais inesperadas. Basta você se instalar confortavelmente em sua poltrona para apreciar algum filme ou aquele livro imperdível que se lê de um lance só, para que alguém, às vezes, um amigo ou talvez um conhecido ou pior um desconhecido apareça lhe propondo assinaturas de jornais e revistas, por intermédio de uma chamada telefônica ou uma visita instantânea. Pelo telefone uma voz delicada e insistente lhe oferecendo vantagens para que você adquira um serviço desde mirabolantes planos de seguro além da aquisição de pacotes turísticos para a Patagônia, para a Antártica ou qualquer outro lugar exótico, que pode ser até no Pacífico pós-tsumani. Muitas vezes as incursões telefônicas se concentram em pedidos de ajuda para instituições de amparo desconhecidas, o atencioso ouvinte mal consegue responder. Algumas ofertas são imposições no caso de cartão de crédito, onde a invasão à privacidade é total, sabem tudo do infeliz correntista, pedem somente confirmação dos dados para que outro cartão mais poderoso possa ser enviado em três dias, com promessas e brindes especiais. O incauto ouvinte, um potencial consumidor, às vezes tem que soar a camisa para se livrar do telemarketing, uma praga que ataca nas horas mais inoportunas até nos feriados. Sábado de manhã, em geral, é um período propício para as vítimas serem atacadas no sossego de seu lazer. Mesmo que você consiga dizer que não tem interesse por tal serviço, o cerco continuará, nos dias posteriores, outros telefonemas da empresa serão feitos com as mesmas propostas logicamente com outros atendentes. Os operadores de telemarketing são formados com louvor no quesito chatice sem limites, são os chatos profissionais que querem a todo custo seus dados e sua aprovação ou não para que enfim você possa ser inserido num sistema impessoal e explorador.

No outro lado da linha, em alguns casos, existe o consumidor que quer o serviço e busca ser atendido e às vezes não consegue, especialmente no caso das empresas de telefonia. Quem não tentou reclamar pelo telefone, depois de horas a fio, discar uma infinidade de números e alguns minutos de espera e ouvir musiquetas terríveis? Quando surge o atendente, aí você tem que expor todos os problemas da linha e rezar que o serviço de reparo aconteça em 24 horas.

Além dos chatos profissionais existem os chatos por vocação são os piores, pois atacam em qualquer lugar desde uma animada festa de confraternização passando por uma seção de filme ou na saída ou entrada do teatro. Podemos incluir também o chato que bebe como um gambá e estraga qualquer reunião social, torna-se inoportuno, se for uma mulher bêbada além de chata é deprimente. O chato que conta só vantagens fala de suas inúmeras conquistas amorosas além de seus incríveis negócios, aplicações na bolsa, no mercado internacional, na aquisição de empresas, também é osso duro de roer. Gosta de falar pelos quatro ventos, quer aparecer de qualquer jeito, o pior que aparece tanto, que os amigos somem, fogem dele. Podemos incluir no rol da vocação os pseudo-intelectuais, que afirmam conhecer tudo, qualquer assunto o “metido sábio” acha que domina, disserta sobre política, teatro, cinema, dança, música, literatura, filosofia, economia, arquitetura, futebol, arte, física quântica, história, urbanismo, energia nuclear, segurança pública consegue falar de tudo e não dizer nada com nada. É na realidade um convencido, sempre de plantão para aparecer, faz muita “mise en scène”, mas não convence, é um almanaque ambulante, quer impressionar de qualquer jeito.

Existe também o chato papagaio de pirata, que não te larga por onde você se locomove ele te acompanha especialmente em festas, em geral o chato é um penetra que quer se relacionar e aparecer. Aliás, o chato penetra fica na porta de entrada dos eventos para ver se consegue entrar junto com os convidados é uma calamidade.

O vizinho chato que só reclama é também uma realidade, tudo incomoda qualquer ruído é motivo de cenas incríveis de lamentações. O bom senso passa longe da mente deste tipo de chato, gosta de criar encrenca, é o famoso “casca de ferida”.

O visitante inesperado que chega fora de hora na sua casa e permanece, horas e horas, comentando sobre seus problemas e pede conselhos, em geral chega lá pelas 10 da noite e sai de madrugada. Os mais chatos chegam à meia-noite. Tem, também, os que reclamam de tudo, telefonam para você em horas estranhas e começam a lamentar, pensam que você é conselheiro de plantão pronto a agir e dar palpites para resolver os mais incríveis problemas. Você procura se desvencilhar, uma tarefa difícil, tem que inventar alguma desculpa bem plausível para se livrar do problemático personagem, como: estou de saída...., estão batendo na porta..., tenho hora marcada com o analista...., vou viajar...., estou fazendo as malas..., não estou te escutando a linha está com defeito...., me desculpe estou cansado não dormi noite passada....,  e tantas outras desculpas que se possa inventar no momento.

O porteiro do prédio que não entrega a correspondência, acumulando-a para entregar-lhe tudo de uma vez, justamente na hora que você chega com as sacolas do supermercado ou com pacotes. Parece que é feito de propósito, mas na realidade o funcionário é um acomodado.

Existe também uma situação que incomoda muito, basta você se aproximar de uma vitrine de uma loja no shopping para aparecer um vendedor perguntando se deseja alguma coisa, numa ânsia descontrolada de atrair o cliente, mas na realidade acaba tirando o encanto, você quer apreciar livremente a mercadoria sem interferência.

Outra situação que irrita muito ocorre na fila do supermercado, quando aparece alguém com dois itens e lhe solicita que você o deixe passar na frente. Você acaba deixando-o passar, mas acontece que em vez de facilitar, o infeliz fica discutindo com o caixa sobre o valor dos itens, mostrando folhetos de outros supermercados com valores menores. Quer falar com o gerente, enfim o cara arma um barraco geral e você que o deixou passar fica com cara de imbecil.

 

                                              José Henrique Fabre Rolim

                                              jhenriquefabrerolim@hotmail.com