Graz, um esteta da forma

A importância de John Graz (1891-1980) no modernismo brasileiro não foi ainda devidamente analisada, a sua trajetória deve ser resgatada,notadamente por ser um dos pioneiros do design brasileiro.
Natural da Suíça, John Graz estudou na Academia de Belas Artes de Genebra tendo lá conhecido a brasileira Regina Gomide (1897-1973) que se tornaria sua mulher, irmã de Antonio Gomide (1895-1967), na ocasião estudante. Nessa escola, Graz estudou com Eugène Gilliard, Gabriel Vernet e Daniel Baud-Bovy, seguiu depois para Munique para se aperfeiçoar na decoração, no design e na produção de cartazes publicitários pelo período de dois anos, tendo estudado com Carl Moss (1873-1959), um mestre da área, na Escola de Belas Artes.
Chegando ao Brasil, em 1920, expôs juntamente com Regina Gomide, tendo a sua tela “Ceia” sido adquirida por Oswald de Andrade que a pagou com um terreno, em Pinheiros, perto da Avenida Brasil, tendo lá construído sua casa.
Graz participou da Semana de 22, com sete obras, paisagens que retratavam Toledo, cidade espanhola, que o impressionou pela grandiosidade da natureza num ambiente não tão tranqüilo como a Suíça. Alguns de seus trabalhos foram publicados na famosa revista Klaxon, na sua sétima edição, uma consagração de sua incursão no meio artístico paulistano.
Em São Paulo, Graz foi um dos expoentes do movimento Art Déco, realizando uma série de trabalhos como painéis, desenhos de móveis, tapetes e cerâmicas, integrando ambientes, em residências das famílias mais influentes daquela época, da década de 20 a 40.
Após ter se destacado como designer e arquiteto de interior, Graz se dedicou à pintura realizando obras que registram cenas do campo e da praia, captando a expressão corporal dos camponeses e pescadores. Suas telas refletem tendências variadas, chegando à abstração além de atingir um primitivismo coerente com o seu lado místico.
A sua atividade artística se alinha na produção e no vínculo renovador dos precursores do modernismo como Warchavhik, Rino Levi, Burle Marx, Lucio Costa e tantos outros que contribuíram para o desenvolvimento de uma estética arquitetônica brasileira.
Graz foi antes de tudo um esteta, um criador requintado cujo objetivo era o bom senso, a funcionalidade do design aliando a sua emoção pictórica com a sua atração pelas cores tropicais e seu encanto pelo Brasil.
As inúmeras ambientações de interiores realizadas por ele acentuavam uma linguagem vinculada ao Art Déco. Sua atividade como ilustrador de revistas e livros se intensificou nos anos 20 e 30, como integrante da Sociedade Pró Arte Moderna tendo participado de sua 1º Exposição, em 1933.
Pietro Maria Bardi assim definia o artista: “Graz foi um típico representante do movimento Art Déco, nos anos 20, 30 e 40. É o tempo em que os arquitetos limpam as fachadas dos enfeites decorativos de estuque e cimento, criando paredes nuas logo chamadas de hospitalares, das quais não gostam os prepostos à conservação do gosto cívico tradicional.” Gregori Warchavhik (1896-1972) ao apresentar o projeto da casa da Rua Santa Cruz, engana os titulares da estética local camuflando a fachada com saliências decorativas que na construção as eliminará, distraindo assim, o fiscal do turno.
Em janeiro de 1921, num discurso em que Oswald de Andrade homenageava Menotti Del Picchia no Trianon, frisava que São Paulo tinha vocação renovadora salientando os novos valores das artes visuais como Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e John Graz, supremos criadores de uma geração revolucionária.
Nos anos 30, forma o Grupo 7 com Regina Graz, Antonio Gomide, Elisabeth Nobling (1902-1975), Rino Levi (1901-1965), Victor Brecheret (1894-1955) e Yolanda Mohalyi (1909-1978), oxigenando assim a cena artística com propostas de alto nível, obras que marcaram o período, consolidando o modernismo.
As paisagens, os retratos, as naturezas-mortas e os temas sacros tinham uma carga expressionista bem evidente próxima a Ferdinand Hodler (1853-1918), seu conterrâneo, criador de composições históricas ou simbólicas e de paisagens alpinas fortemente construídas.
A sua obra denota na essência um caráter renovador, dos magníficos desenhos à versatilidade de sua pintura, passando pela atualidade e funcionalidade dos móveis, percebe-se sua vinculação com concepções estéticas e filosóficas enraizadas na Bauhaus.
Atualmente, uma interessante exposição O Brasil de John Graz acontece na Caixa Cultural (Praça da Sé, 111 – Centro) enfocando obras raras, são 180 desenhos abordando temas diversos como arquitetura, viagens, festas, paisagens, flora e fauna.
José Henrique Fabre Rolim





















