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Título: No Divã com Adão
Sinopse: QUE CULPA TEM ADÃO?
por: Palmério Dória

A culpa começou no Éden e acabou numa famosa marchinha carnavalesca, cantada nos melhores salões do país:

“A Eva, combinada com a serpente

Deu-te a maçã e tu logo ferraste o dente.”



Adão, fica claro, cai como um pato na armação da dupla. Fora do paraíso, continua sem entender.



-- Se ainda fosse uma banana – lamenta-se com Caim e Abel, crescidinhos o suficiente para perceber que seu suposto pai era um banana, não se tocava com Eva ali no maior enrosco com a serpente.



Tem lógica. “Em se plantando, tudo dá”, recém-lançado pela Editora Leitura, Mylton Severiano e Katia Reinisch dizem que os baianos do século 18 acreditavam que a fruta proibida era a banana. E a banana-da-terra, dotada do maior borogodó, foi classificada cientificamente como musa paradisiaca.



O certo é que, juntando a fome com a vontade de comer, pintava no Éden o primeiro corno manso da história. Caim e Abel encucaram. Na época, não havia psiquiatra. Caim toma partido da mãe. Abel manda-o para a PQP. Caim manda-lhe uma pedrada no meio do cocuruto. Começa a Primeira Guerra Mundial. Abel vira o primeiro presunto da história. Mais culpa para Adão purgar.



E continuaria assim séculos afora, se não aparecesse na Terra outro Adão, com um livro que nos livra de todas as culpas: No Divã com Adão, lançamento da editora Planeta, um barato divino!



Nascido em Cachoeira do Sul há 44 anos, talvez carregando a culpa de não ter nascido em Cachoeira do Norte, o cartunista gaúcho Adão Iturrusgarai deitou nos melhores divãs de Porto Alegre e São Paulo, numa busca insaciável do eu.



Até que muito recentemente, depois de uma passada pelo Rio, cansado das megalópoles, teve um estalo. Só com a volta ao paraíso Adão poderia redimir os homens de todas as culpas e pecados. E mudou-se para Gaiman, um povoado galês na Patagônia argentina. Jung, Freud, Reich e Laing, ali, morreriam de fome. Na santa paz dos pingüins, o criador de Aline, que botou Rebordosa no chinelo, e Rock e Hudson, os caubois gays, precursores de Brokeback Mountain, teve presença de espírito para formular a nossa redenção.





Para chegar ao paraíso, basta fazer bom uso das penitências que o cartunista ministra com genial competência. Pode ser o próprio tempo de análise. Pode ser na forma clássica de Ave-Marias e Pai-Nossos. Pode ser em quilos de culpa propriamente ditas, devidamente jogadas no espaço. Pode ser em anos no Paraíso.



Vamos ao revolucionário método Adão:



Ser expulso do quarto dos pais -- mais 2 anos de análise.



Ser expulso da sala de aula – mais 5 anos de análise.



Ser expulso de casa pela mulher – mais 10 anos de análise.



Ser expulso de uma suruba – mais 7.000.000.000 de anos de análise.



Ou:



Cobiçar o autorama do próximo – 2 ave-marias e 1 pai-nosso.



Cobiçar o salário do próximo – 5 ave-marias e 3 pais-nossos.



Cobiçar a mulher do próximo – 12 ave-marias e 6 pais-nossos.



Cobiçar a mulher inflável do próximo – 200.000 ave-marias e



100.000 pais-nossos.



Ou seja: Adão tem noção muito heterodoxa de pecado. Pecado dos grandes é perder a virgindade num banheiro químico. Pecado enorme é desejar a mulher inflável do próximo. Pecado terrível é ir pro motel com leguminosas. Pecado incrível é transar sem culpa.



Como George Bernard Shaw, Adão veio ao mundo para que os homens de bem se arrependam. Suas avaliações e diagnósticos vêm acompanhados de um traço ligeiro, que lembra muito o do tunisino Wolinski, criador do imortal Georges, o Espancador. E, ao contrário do outro Adão, grande bestalhão, desde cedo aprendeu que rachar o bico é o melhor antídoto contra a culpa. A dele e a dos outros.
Autores: Adão Iturrusgarai
Editora: Ed. Planeta